• Obituário Prof. Ricardo Flores (1947-2020)

    Obituário Prof. Ricardo Flores (1947-2020)

    Obituário
    Prof. Ricardo Flores (1947-2020)

     

    Ricardo Flores Pedauyé nasceu em 27 de janeiro de 1947, em Almoradí, uma pequena cidade na
    Província de Alicante, Comunidade Valenciana, Espanha. Em 1969, graduou-se Engenheiro Agrônomo pela
    Escola Técnica Superior de Engenheiros Agrônomos de Valência e, em 1971, em Ciências Químicas pela
    Universidade de Valência. Em 1975, obteve o título de doutor em Ciências Químicas pela Universidade de
    Valência, estudando as partículas nucleoproteicas associadas ao vírus da tristeza dos citros (CTV). Em 1976-77,
    realizou seu pós-doutorado na Universidade da Califórnia, Riverside, EUA, sob a supervisão do Prof. Joseph
    Semancik, onde iniciou os estudos com viroides, pelos quais ele costumava dizer que havia se apaixonado, e
    com os quais desenvolveu a maior parte de sua exitosa carreira científica, obtendo avanços no conhecimento,
    principalmente sobre diferentes aspectos da replicação, patogênese e evolução desses minúsculos RNA. Suas
    descobertas pioneiras sobre mecanismos de autocorte em viroides culminaram na utilização desse conhecimento
    no desenho de ribozimas com aplicações biotecnológicas. Em fevereiro de 1989, ingressou como professor de
    investigação do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), no Instituto de Biologia Molecular e
    Celular de Plantas (IBMCP), Universidade Politécnica de Valência (UPV), Espanha, instituição que lhe
    conferiu, merecidamente, a láurea ad honorem, e onde permaneceu trabalhando ativamente até a sua morte,
    ocorrida no dia 20 de dezembro de 2020.
    Autor de mais de 200 artigos científicos e de revisão, publicou dezenas de capítulos de livros
    sobre viroides, além de ter sido editor de dois dos principais livros sobre o tema que dedicou a maior parte de
    sua carreira científica: Viroids [A. Hadidi, R. Flores, J.W. Randles & J.S. Semancik (Eds.), 2003, CSIRO
    Publishing, Collingwood, Australia]; e Viroids and Satellites [A. Hadidi, R. Flores, J.W. Randles & P.
    Palukaitis (Eds.), 2017, Elsevier, London, UK].
    O Prof. Flores foi membro do comitê editorial de periódicos especializados em Virologia,
    Fitopatologia e em RNA, e fez parte de diversas comissões espanholas para avaliação internacional de
    atividades científicas. Foi vice-presidente da Sociedade Espanhola de Virologia, Membro Honorário da
    Academia de Ciências Húngaras, e homenageado com Placa de Honra da Associação Espanhola de Científicos.
    Foi membro das Sociedades Espanholas de Bioquímica, Microbiologia, Biotecnologia, Fitopatologia e
    Fisiologia Vegetal, além de ter sido membro da International Society for Plant Molecular Biology, RNA Society,
    American Phytopathological Society e International Organization of Citrus Virologists. Foi Presidente do
    Grupo de Estudos sobre Viroides do International Committee for Taxonomy of Viruses (ICTV) e Assessor sobre
    Viroides do National Center for Biotechnology Information (USA).
    Orientou estudantes em trabalhos de conclusão de curso, teses de doutorado e supervisionou
    dezenas de trabalhos de pós-doutorado. Sua capacidade de formação de recursos humanos para atuação em
    pesquisa científica fica evidenciada no grande número de ex-alunos que atuam como professores ou
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    pesquisadores permanentes em universidades e instituições de pesquisa espanholas e de outros países, incluindo
    Alemanha, Brasil, Itália e Tunísia. Com uma didática notável, tinha uma grande capacidade de contagiar seus
    alunos com seu conhecimento extraordinário e seu entusiasmo pela cultura, pelas artes e pela ciência,
    principalmente envolvendo os viroides. O Prof. Flores foi responsável pela disciplina de doutorado “Química e
    biologia dos viroides”, que ele ministrava, anualmente (desde 1981), para estudantes de doutorado das
    Universidades de Valência e Politécnica de Valencia. Ele tinha prazer em ensinar, transferindo seus
    conhecimentos e divulgando as pesquisas realizadas com viroides, tendo sido Professor Visitante na
    Universidade de Adelaide, Austrália (1997), Universidade Nacional de La Plata, Argentina (1999 e 2004),
    Università “Federico II”, Nápoles, Itália (2001), Universidade de Talca, Chile (2002) e Universidade de Túnez,
    Tunísia (2005).

    Esteve no Brasil, em 1987, 1992 e 1994, como Professor Visitante, a convite do Prof. E.W.
    Kitajima, para ministrar o curso “Viroides” para estudantes de pós-graduação, na Universidade de Brasília, UnB
    (Figura 1). Os viroides são patógenos especiais que demandam conhecimentos básicos de bioquímica para sua
    diagnose. O Prof. Flores dominava os conceitos e as técnicas experimentais para análise de doenças causadas
    por viroides em um nível elevado, sendo capaz de transmiti-las com extrema facilidade para seus estudantes. De
    fato, as ferramentas teóricas e práticas fornecidas pelo Prof. Flores foram o primeiro grande impulso para os
    estudos pioneiros de caracterização molecular de viroides no Brasil. Esses trabalhos contaram com a
    participação da Dra. Maria Esther N. Fonseca-Boiteux (Embrapa-Hortaliças) nos primeiros estudos moleculares
    do citrus exocortis viroid (CEVd, Pospiviroidae), na descoberta de um novo viroide em plantas de Coleus, além
    de um trabalho pioneiro envolvendo microscopia eletrônica de transmissão, em que se confirmou a localização
    subcelular do avocado sunblotch viroid (ASBVd, Avsunviroidae) nos cloroplastos de células de abacateiro
    infectado. Posteriormente, as colaborações se intensificaram com projetos de pesquisa em colaboração com o
    grupo do Dr. Marcelo Eiras (Instituto Biológico) e do Dr. E.W. Kitajima (ESALQ-USP), envolvendo trabalhos
    básicos de interações de viroides com proteínas do hospedeiro e desenvolvimento de métodos para purificação
    de RNA e detecção de viroides em citros, crisântemo e videira. Em sua última vinda ao Brasil, em 2006, o Prof.
    Flores nos brindou com uma magnífica palestra sobre viroides no Congresso Brasileiro de Virologia, em
    Campos do Jordão (Figura 2).

     

    Além de vasta produção intelectual, o Prof. Flores deixa esposa, filhos, netas, amigos e colegas
    que irão sempre se recordar do seu jeito amável, seu sorriso fácil, sua alegria e paixão pelo trabalho e,
    principalmente seu entusiasmo pela vida, pelas artes, pelo esporte e pela ciência. Como o Prof. Flores era
    colecionador de frases e aforismos, finalizamos este texto com uma frase de Plínio, o velho (23-79 d.C.), que ele
    sempre incluía em suas apresentações sobre viroides: Natura numquam magis est tota quam in minimis (“Em
    parte alguma encontramos a natureza na sua totalidade como nas suas menores criaturas”). Ricardo Flores soube
    como poucos mostrar, demonstrar e divulgar com maestria a importância do tema de suas pesquisas. Em
    especial, nós, autores deste texto, que tivemos o privilégio de conhecê-lo pessoalmente, sentiremos muito sua
    falta, mas temos convicção de que o Prof. Flores cumpriu com brilhantismo seu papel como cientista e
    principalmente como ser humano.

     

    Elliot W. Kitajima
    ESALQ-USP, Piracicaba, SP
    ewkitaji@usp.br

    Maria Esther N. Fonseca-Boiteux
    Embrapa-Hortaliças, Brasília, DF
    maria.boiteux@embrapa.br

    Marcelo Eiras
    Instituto Biológico, São Paulo, SP
    marcelo.eiras@sp.gov.br

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