• ADEUS AO PROFESSOR MACHADO

    ADEUS AO PROFESSOR MACHADO

    ADEUS AO PROFESSOR MACHADO

    No sábado, 02 de maio de 2020, faleceu o nosso querido Professor Raimundo Diogo Machado, aposentado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, aos 89 anos, em consequência de uma sepse.  Em isolamento involuntário desde 1997, quando sofreu um acidente automobilístico ao descer da região serrana consequente a um acidente vascular encefálico que o acometeu, o Prof. Machado era um professor como poucos.  Pequeno em estatura, de intensos olhos azuis, agitado e de movimentos rápidos, ao conhecê-lo, de imediato associei a sua figura a um raio-trovão que, confesso, inicialmente muito me assustou. Era médica de beira de leito, sem qualquer vivência de laboratório e tinha decidido fazer o meu projeto sobre febre maculosa. Era um imenso desafio e o Prof. Machado era o único que poderia me orientar. Felizmente, o susto se dissipou e, mais do que uma relação de orientada e orientador, brotou uma sincera e profunda amizade.  Dinâmico e determinado, este mineiro natural de Rio Piracicaba, graduado em Farmácia pela Universidade de Ouro Preto, era um homem simples, humilde, digno, honesto, transparente e cumpridor de seus deveres, detentor de uma experiência prática nem sempre compreendida pelos seus pares. Formador de muitos professores e pesquisadores que hoje atuam predominantemente na área da Virologia, nunca se preocupava com o sucesso pessoal ou estar em evidência. Como professor titular foi chefe do Departamento de Virologia do Instituto de Microbiologia e Imunologia da UFRJ por diversos mandatos e diretor do Instituto de Microbiologia Prof. Paulo de Goes. Foi um dos principais mentores da criação do Curso de Graduação em Microbiologia e também um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas. Personagem essencial na criação da Sociedade Brasileira de Virologia, participou, em 1982, da primeira diretoria da sociedade com Hermann Schatzmayr, Moacyr Rebello, Marilda Siqueira, Nissin Moutsstché e Carlos Nozawa. Curiosamente, ao procurar algum artigo sobre o Prof. Machado na internet, me surpreendi com uma notícia publicada no Globo em 01/10/2019. Sob o título “Como está o menino que venceu a Primeira Feira Nacional de Ciências, há 50 anos atrás ”, a matéria trazia a foto do Dr. José Hermógenes Suassuna, médico nefrologista, professor de doenças renais da UERJ e membro da Academia Nacional de Medicina que, aos 12 anos de idade, foi premiado sob a orientação do Prof. Machado. Como não registrar? Infelizmente, o seu espírito inquieto, proativo e direto foi-se dissipando nestes 23 anos em que permaneceu isolado com restrições ao lado da esposa Dona Lícia e de seus dois filhos, Sérgio e Thais. Não foram momentos bons. Hoje, emocionada e triste, registro a minha profunda gratidão pelos anos de convivência e por ter conseguido, com o seu apoio e dedicação, tornar possível a criação da linha de pesquisa sobre rickettsioses na Fiocruz. Neste tempo de pandemia de COVID-19 e de afastamento social, representando as principais instituições de ensino e pesquisa fluminenses – Fiocruz, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio de Janeiro e Universidade Federal Fluminense-, seus alunos e eu nos manifestamos em reconhecimento e agradecimento a quem, com seu esforço e dedicação, contribuiu e viabilizou o presente de cada um de nós. (Dra. Elba Lemos, Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz).

    Alguns depoimentos sobre o professor Machado:

    Pilar da Virologia no país, com grande relevância acadêmica foi professor, pesquisador, diretor do IMPPG, membro de sociedades e de comitês científicos. Orientou inúmeros alunos, ministrou muitas palestras, criou cursos e sempre manteve a simplicidade dos verdadeiros sábios, na orientação aos alunos, tirando dúvidas de colegas, ou pondo a mão na massa, quer no fluxo, ou em atividades extras, dignas do “Magaiver” como eletricista, encanador, vigia, instalador de aparelhos e até limpeza, após incêndios e desabamentos ocorridos nas instalações do Departamento de Virologia, onde tive o grande privilégio de ser sua aluna, colega, vice-chefe, chefe e chefiada. Na sua espontaneidade, podia parecer rude, mas o altruísmo era um traço forte que o distinguia, reconhecido por todos que o conheceram. Difícil expressar, em poucas linhas, minha admiração por ele e a gratidão a Deus por esse convívio enriquecedor. RIP caro Mestre !! (Dra. Maria Isabel M. Liberto – Universidade Federal do Rio de Janeiro)

    Tive meu primeiro contato com a Virologia através do Professor Raimundo Diogo Machado. Tive também a satisfação de tê-lo como orientador de Mestrado. Ele tinha uma forma muito prática e particular de vivenciar e transmitir conhecimento sobre os vírus, tendo participado diretamente na formação de diversos virologista brasileiros. O Prof. Machado tinha verdadeira paixão pelo Departamento de Virologia e pelo Instituto de Microbiologia, ambos da UFRJ. Mas, acima de tudo, era um ser humano sensível e de padrões morais elevados.” (Dr. Edson Elias Silva – Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz).

    Com muito pesar lamento a morte do Prof. Raimundo Diogo Machado, pelo qual mantenho eterna gratidão.  Ele foi meu orientador no mestrado e no doutorado. Junto com a Dona Lícia Lisboa Machado foram meus padrinhos de casamento, dando início a  uma amizade fraterna e familiar que forjamos ao longo dos anos de convivência. Como professor, ele se caracterizava  pela personalidade  marcante, alicerçada na espontaneidade e no caráter proativo. Dessa espontaneidade, falava prontamente o que sentia, sem rodeios, fruto da brilhante inteligência emocional que detinha. Como proativo, antecipava-se aos problemas do cotidiano  e  deixou   sólida contribuição para nossa Instituição, quer no aspecto acadêmico, com trabalhos de ampla abrangência, em colaboração com seus orientandos, quer no administrativo. Neste último, chegou até ao cargo de Diretor. Como legado do mandato, foi criado o Curso de Graduação em Microbiologia e Imunologia, ampliando assim  o escopo de ensino de nossa instituição. Base para a consolidação da  pós-graduação e  abertura de oportunidade para jovens estudantes ingressarem em  uma  nova Faculdade da UFRJ.  Como orientador, o Prof Machado  sempre depositou plena confiança e responsabilidade em seus orientandos, condição esta que proporcionava a produção de trabalhos relevantes  na Virologia  e áreas afins. O laboratório dele era  multiversátil e colaborativo com todos que  o procuravam em busca de ajuda. Com estas palavras,  reafirmo meu reconhecimento ao legado profissional deixado pelo Prof. Machado, com o sentimento de gratidão e a certeza de que ele descansou das limitações físicas que  o mantiveram preso nos últimos anos, seguindo agora para os braços de Deus, no mundo espiritual.” (Dr. Maulori Curié Cabral – Universidade Federal do Rio de Janeiro).

    O Prof. Machado, assim como era carinhosamente chamado por todos nós, sempre foi uma pessoa simples e direta em sua fala e maneira de se expressar. Um coração enorme! Muitos dos profissionais que hoje estão trabalhando na linha de frente no combate à COVID-19 tiveram pelo menos parte de sua formação com o prof. Machado. Suas contribuições para a Virologia brasileira são enormes! Uma perda inestimável tanto do exemplo profissional quanto da pessoa que nos deixará muitas saudades!” (Dr. José Paulo G. Leite, Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz).

    Raimundo Diogo Machado, mais conhecido como Dr. Machado, veio ao mundo com a responsabilidade de ensinar e formar pessoas, principalmente na sua área de conhecimento, a microbiologia. E com sua simplicidade, objetividade e ética cumpriu com excelência esta missão. Sou muito agradecido ao destino, por ter me colocado no caminho deste mestre, que com apoio e incentivo constante contribui de forma fundamental na minha caminhada profissional. Com certeza, para sua chegada o céu preparou uma bela recepção. Que Deus o tenha e descanse em paz.” (Dr. Eduardo C. Leal – afilhado, amigo e aluno-, Fiocruz).

    O Prof. Raimundo Diogo Machado era uma pessoa especial para todos que o conheceram, deixou uma herança de muito trabalho e dedicação ao Departamento de Virologia e ao Instituto de Microbiologia, tendo sido sócio fundador da Sociedade Brasileira de Virologia.” (Dr. José Nelson Couceiro – Universidade Federal do Rio de Janeiro).

    O Prof Machado ajudou a construir a história da Virologia no Rio de Janeiro, orientou teses nos mais variados temas da área colaborando com a formação de muitos professores/pesquisadores. O jeito sincero e acolhedor do Prof. Machado permanecerá na memória de todos que tiveram a oportunidade de conviver com ele.” (Dra. Rita de Cassia N. Cubel – Universidade Federal Fluminense)

    Falar de Dr. Machado é difícil. Ao mesmo tempo é muito leve e feliz! Dizer que mesmo conhecendo ele em 1979, tendo feito o mestrado em bactérias anaeróbias, quando fiz a especialização em Microbiologia e Imunologia, ele sempre se mostrou um excelente professor. Competente, super profissional e disposto a ajudar qualquer aluno que o procurasse, sempre estava pronto para tirar dúvidas. Via-se claramente que o interesse dele era que a formação do aluno fosse a melhor possível e que sentisse orgulho do Instituto de Microbiologia. Uma perda para a ciência e para o ensino do Brasil.” (Dr. Antônio Eugenio de Almeida – INCQS/Fiocruz).

    “Toda criança gosta de ir no trabalho dos pais. Os meus eram microbiologistas, Ivone e Ítalo Suassuna, e trabalhavam no antigo Prédio do Instituto de Microbiologia da hoje UFRJ. Lá eu era paparicado por muitos “tios” e “tias”. Gostava em particular da virologia, quando ficava com um “tio” especial, o Machado. Com a transiluminação de um ovoscópio ele me mostrava os embriões de pintos em desenvolvimento. Assim foi que elegi a embriologia do pinto como o tema do meu trabalho na Feira Nacional de Ciências. Ao longo de meses, estudava a teoria com outro “tio”, o Gérson Cotta Pereira, e, com o “tio” Raymundo Machado, dissecava e conservava, dia a dia, amostras do desenvolvimento embrionário. O primeiro prêmio na área de biologia foi meu primeiro trabalho e claramente me orientou no caminho da ciência e da medicina.

    Anos depois, nos encontramos de novo. Agora mais crescido e resistindo bravamente para não o chamar de “tio” na frente dos outros, queria estudar a infecção por CMV em transplantes renais como tema de mestrado. Na UERJ tínhamos os pacientes, mas não o laboratório de virologia. Novamente fui adotado e orientado pelo Machado, que tinha aquele sotaque tão familiar que me remetia à infância. Machado ainda me apoiou e assistiu com orgulho minha defesa de doutorado, agora em outra linha. São essas coisas do destino; pessoas que te acompanham a vida inteira, com uma sombra protetora. Quando partem os sentimentos se misturam. A tristeza e a sensação de estarmos mais sós e desprotegidos e o descortinar agradecido ao passado, pela felicidade de ter encontrado aquela pessoa tão especial em nosso caminho! Descanse em paz, ‘tio”.” (Dr. José Hermógenes Suassuna, Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

    Deixe seu comentário →

Deixe seu comentário

You must be logged in to post a comment.