Com base em Evidências Científicas Virologistas Recomendam o Distanciamento Social
Autor: SBV em 03/04/2020
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O colegiado dos Ex-Presidentes e a atual Diretoria da Sociedade Brasileira de Virologia
(SBV), entidade que congrega virologistas do país e de alguns países da América
Latina, vem a público reiterar a importância do distanciamento social nesse momento
com o intuito de retardar a disseminação da epidemia de coronavírus no Brasil.
Com base nas recomendações dos especialistas em todas as áreas de Saúde Pública,
da Organização Pan Americana da Saúde (OPAS) e da Organização Mundial da Saúde
(OMS), nós da SBV enfatizamos que este procedimento é essencial para mitigar a
transmissão do vírus e permitir a redução do número de casos de SARS-CoV-2 (COVID19).
O distanciamento social não só tem o objetivo de proteger os cidadãos brasileiros,
mas principalmente, evitar a sobrecarga dos sistemas de saúde público (Sistema Único
de Saúde - SUS) e privado. Somos todos trabalhadores e cidadãos, sensíveis às
dificuldades econômicas que serão ainda mais sentidas na parcela menos favorecida
da população brasileira. A exemplo de outros países, é um dever do Estado e de
economistas determinar as ações para minimizar estas consequências. Nós virologistas
temos por princípio, além do desenvolvimento científico, salvar vidas, o que acreditamos
ser neste momento a prioridade.
Sabemos pelo histórico de outras epidemias que, subestimar a magnitude da sua
extensão, por achados iniciais, é catastrófico. Não esqueçamos que no início da
pandemia de HIV-1 muitos acreditaram que a doença só atingiria os homossexuais
masculinos, e que a microcefalia induzida pelo vírus Zika não havia sido
adequadamente relatada até sua disseminação nas Américas. Na atual epidemia é bom
lembrar que o relaxamento de medidas de contenção certamente contribuiu para a
disseminação do vírus e do maior impacto da letalidade em locais específicos da Itália
e hoje nos USA. O Reino Unido também tentou a via de não utilizar o distanciamento
social e logo precisou voltar atrás nesta decisão. As estimativas de estudos
internacionais apontam perspectivas sombrias para nosso país, com a possibilidade de
aproximadamente 44.000 óbitos, mesmo adotando um distanciamento social (mais
abrangente). Por outro lado, o isolamento parcial, não recomendado por especialistas
em Saúde Pública, OPAS e OMS, poderia atingir mais de meio milhão de mortes,
relacionadas à COVID-19. A perspectiva pode ser ainda pior, visto que na Itália, por
exemplo, já foram reportados 18.000 casos de jovens apresentando quadros graves de
COVID-19, contrariando a ideia corrente de que apenas idosos são vítimas do vírus, o
mesmo ocorrendo em outros países. Nenhuma morte é justificável se pudermos evitar
por meio de uma medida simples.
O distanciamento social já se mostrou eficaz em outras epidemias nas quais nem
mesmo contávamos com as tecnologias de diagnóstico e a robustez de ferramentas
científicas disponíveis atualmente. Tais tecnologias de monitoramento da circulação do
vírus e da resposta imune dos indivíduos pode, inclusive, ser a chave para o retorno da
população economicamente ativa às atividades laborais, de forma segura e sem o risco
de novas ondas epidêmicas. O distanciamento social é um ato baseado na história
pregressa e atual das epidemias virais, com evidências científicas comprovadas e
favorece, principalmente, um tratamento digno das pessoas que necessitam de um leito
hospitalar.
O isolamento horizontal é a chance de reduzirmos a ocorrência de vários casos graves
da COVID-19, cujo comprometimento também se estenderá a população mais jovem e
mais produtiva.
Finalmente, nos colocamos à disposição do Ministério da Saúde e do Ministério da
Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações para qualquer colaboração que seja
da nossa competência.
Ex-Presidentes
Bergmann Morais Ribeiro, UnB
Clarice Weis Arns, Unicamp
Edison Luiz Durigon, USP
Edson Elias da Silva, Fiocruz
Erna Geessien Kroon, UFMG
Eurico de Arruda Neto, USP-RP
Luiz Tadeu Moraes Figueiredo, USPRP
José Paulo Gagliardi Leite, Fiocruz
Maurício Lacerda Nogueira, FAMERP
Paulo César Peregrino, UFMG
Paulo Michel Roehe, UFRGS
Ricardo Ishak, UFPA
Diretoria Atual
Fernando Rosado Spilki, FEEVALE
Flávio Guimarães da Fonseca, UFMG
João Pessoa Araújo Júnior, UNESP
Fabrício Souza Campos, UFT
Jônatas Santos Abrahão, UFMG
Luciana Barros de Arruda, UFRJ