O que se sabe até agora sobre o 2019-nCoV, um novo coronavírus que infecta humanos, causando doença respiratória? 26 de Janeiro de 2020
Autor: SBV em 14/02/2020
O que se sabe até agora sobre o 2019-nCoV, um novo coronavírus que infecta humanos, causando doença respiratória
Sharton V. A. Coelho, doutorando do LaGIIVir, programa de Imunologia e Inflamação, Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, UFRJ.
Colaboradores e revisor: Luciana J. da Costa Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, UFRJ; Luciana B. de Arruda, Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, UFRJ e Sociedade Brasileira de Virologia.
Um novo coronavírus tem causado grande preocupação por parte da população e dos profissionais de saúde da China e de vários outros países. Essa nova infecção foi identificada a partir das últimas semanas de dezembro de 2019, quando casos de pneumonia causada por agente desconhecido foram reportados às autoridades de saúde de Wuhan, província de Hubei, na China. Os sinais e sintomas observados nos pacientes diagnosticados com este quadro de pneumonia levantaram a suspeita de possível infecção por coronavírus, e assim colocaram as autoridades de saúde chinesas em alerta imediato. Análises diagnósticas da amostra de um paciente hospitalizado na China descartaram a presença de SARS-CoV, MERS-CoV, influenza, influenza aviária, adenovírus e outros patógenos comuns que causam doença respiratória. E, em cerca de 2 semanas os pesquisadores chineses determinaram e divulgaram a sequência do genoma viral completo, identificando a presença de um novo coronovírus, que tem sido denominado 2019-nCoV.
Um número crescente de casos e óbitos pela doença tem sido divulgado pela mídia informativa e pelas autoridades de saúde. Até o momento a China concentra o maior número de casos, embora seja crescente o número de notificações em outros países, incluindo Tailândia, Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos, Singapura, Vietnã, Nepal, Arábia Saudita, França, Malásia e Austrália, todos eles associados à exposição de indivíduos em Wuhan ou que entraram em contato com pessoas que estiveram no epicentro do surto. No link a seguir, é possível acompanhar as notificações e distribuição dos casos, com atualizações periódicas:
https://gisanddata.maps.arcgis.com/?/opsdashboa?/index.html?.
Os sinais e sintomas observados nos indivíduos infectados são correspondentes à infecção viral aguda, com quadros de pneumonia geralmente associado a febre, dores musculares, diarreia, dores de garganta e dificuldades para respirar. No entanto, como diferentes infecções virais podem gerar estes sinais e sintomas, é necessário um diagnóstico laboratorial preciso para identificar o patógeno associado ao quadro, incluindo amplificação do genoma viral por PCR e sequenciamento do genoma.
Os coronavírus fazem parte da família Coronaviridae, que inclui vírus que infectam humanos e outras espécies animais. Apesar de haver uma restrição para transmissão entre humanos e animais, eventualmente, essa barreira é quebrada, e os vírus podem sofrer alterações genéticas que permitem a infecção de humanos e, em alguns casos, a transmissão homem-homem. O fato de que a população humana nunca tenha entrado em contato com esses novos vírus e esteja, portanto, susceptível a essa nova infecção, aumenta a probabilidade de transmissão e rápida disseminação na população e alerta para a possibilidade de infecções graves.
O mundo viveu, recentemente, surtos/epidemias por novos coronavírus, que causaram infecções respiratórias graves, o que tem alimentado a grande preocupação em saúde pública no atual momento. Em 2002 aconteceu uma das maiores epidemias da infecção por coronavírus em humanos, a qual se iniciou na China e se estendeu a outros 26 países, ficando conhecida como coronavírus associado à Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS-CoV). O elevado número de casos (cerca de 10.000) e a alta taxa de letalidade (em torno de 1.000 óbitos, taxa de 10% de mortalidade) foram marcantes na época, atingindo principalmente a população com idade superior a 60 anos, a maioria exigindo hospitalização e tratamento intensivo diante da progressão de danos respiratórios. Posteriormente, em 2012, houve uma outra epidemia por coronavírus, dessa vez denominado MERS-CoV ou Coronavírus associado à Síndrome Respiratória do Oriente Médio, sendo registrados em torno de 2200 casos de infecção e 790 óbitos (taxa de 36% de letalidade). Embora tenha sido descartada dentre outros patógenos a presença de SARS-CoV e MERS-CoV nas amostras dos casos recentes, a semelhança dos sintomas associados à infecção por estes coronavírus, bem como a confirmação da transmissão pessoa-pessoa pelo 2019-nCoV, torna alarmante a possibilidade de uma nova epidemia, exigindo rígida vigilância para a contenção da disseminação viral e controle da doença. Até o momento, a taxa de letalidade do 2019-nCoV tem sido inferior às registradas para o SARS-CoV e MERS-CoV. Medidas para contenção da disseminação viral têm sido tomadas, incluindo restrição de circulação e fechamento de pontos turísticos, proibição nacional da venda de animais silvestres, e suspensão de viagens turísticas que partem da China.
Novas pesquisas estão sendo direcionadas para identificar detalhadamente as características da nova cepa viral. O 2019-nCoV tem 70% de similaridade do seu genoma com o genoma do SARS-CoV, sendo até o momento um coronavírus desconhecido, ou seja, nunca observado na natureza e na infecção de humanos. Alguns trabalhos publicados recentemente em periódicos de grande importância mundial têm contribuído para uma melhor compreensão acerca do novo agente viral, incluindo um trabalho assinado por autores do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China, descrevendo características genéticas e epidemiológicas importantes do 2019-nCoV, publicado no The New England Journal of Medicine. Em outro estudo, os autores mostram preliminarmente que os primeiros 41 casos do 2019-nCoV de indivíduos infectados em Wuhan apresentam sintomas similares aos observados na infecção por SARS-CoV, enquanto um segundo estudo publicado no mesmo momento reporta a transmissão pessoa-pessoa do vírus e seu espalhamento entre as cidades da região por 6 membros da mesma família. O seu potencial em infectar mamíferos e os indícios de uma possível transmissão zoonótica tem aumentado diante de estudos epidemiológicos que associam os casos de pneumonia com uma frequência regular destes indivíduos em frequentar lugares específicos como mercados de frutos do mar e venda de animais, bem como no consumo de alimentos contendo aves, morcegos, cobras, dentre outros. Além disso, um artigo publicado recentemente no Journal of Medical Virology tem corroborado para a ideia de trasmissão zoonótica. Nesse artigo científico, fica evidente pela análise do genoma do vírus que o 2019-nCoV está relacionado com Coronavírus encontrados em morcegos e os autores sugerem, baseado em análises de ?uso de códons?, que as cobras são possíveis reservatórios e espalhadoras do novo vírus. No entanto, uma notícia publicada no dia 23 de janeiro na revista Nature tem mostrado que muitos pesquisadores descartam essa ideia e apontam que ainda não se sabe exatamente a fonte da infecção pelos indivíduos, nem o fluxo de transmissão interespécies e mais estudos precisam ser realizados para a obtenção de informações mais sólidas.
A imediata atuação das autoridades de saúde, bem como a contribuição de pesquisadores chineses, tem apontado para a contenção do espalhamento e do aparecimento de novos casos de infecção o mais breve. Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem contribuído com recomendações de procedimentos que visam reduzir novas infecções, alertando tanto a população quanto as autoridades de saúde. Medidas institucionais como monitoramento de aeroportos, bem como da temperatura corporal de indivíduos que estiveram nas zonas mais afetadas, além de maior vigilância de hospitais, postos de saúde e informatização de medidas de precaução individual têm sido importantes, uma vez que não existe tratamento específico para essas infecções. Ainda, alerta-se para as informações que visam a proteção individual e consequentemente coletiva dos indivíduos. Lavagem das mãos com água e sabão, o não contato com indivíduos visivelmente doentes, bem como animais selvagens e de fazendas, e cuidados no consumo de alimentos, certificando-se que estejam adequadamente cozidos.
Em caso de dúvidas, recomenda-se que toda a população confira as informações disponibilizadas pelas autoridades de saúde e pela OMS.
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