
Belo Horizonte, 20 de maio de 2022
A Sociedade Brasileira de Virologia vem acompanhando com atenção o surto internacional da varíola símia, ou varíola dos macacos, que já acometeu, confirmadamente, mais de 80 pessoas em pelo menos 10 países fora da África, incluindo países europeus, Israel, Austrália, Canadá e Estados Unidos. O vírus causador da doença (Monkeypox virus - MPX) pertence à família Poxviridae, e é geneticamente relacionado aos vírus Vaccinia e Varíola (Vaccinia virus e Smallpox virus, respectivamente). Existem dois clados conhecidos de MPX, ambos endêmicos do continente africano, onde surtos pontuais são frequentemente relatados. O clado da bacia do Congo é conhecidamente mais virulento, enquanto o clado da África ocidental causa infecções mais brandas. Os casos acontecendo atualmente fora da África são, até o momento, exclusivamente causados por vírus do clado da África Ocidental. A doença é sistêmica e traz, como sintomas principais, febre, mialgia, linfadenopatia e erupções cutâneas, de forma que o diagnóstico diferencial para outras doenças de manifestação cutânea, como a varicela, é essencial.
No Brasil há muitos virologistas com experiência em infecções causadas por poxvirus, principalmente em razão da circulação e transmissão zoonótica de linhagens do vírus vaccínia no país, causando doença exantemática conhecida como vaccínia bovina, cujo diagnóstico diferencial em relação à varíola dos macacos também será importante no caso da entrada desta doença no Brasil. O Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações brasileiro (MCTI) criou um comitê consultivo temporário, denominado CâmaraPox - Rede Vírus, que inclui 5 virologistas e membros da Sociedade Brasileira de Virologia, inclusive seu atual presidente e dois ex-presidentes, todos com ampla experiência no estudo dos poxvírus (https://www.gov.br/mcti/pt-br/coronavirus/camara-tecnica-temporaria-camara-pox-mcti ). O objetivo deste comitê é criar um estado de preparação cientifica para o caso da ocorrência de casos da varíola dos macacos no Brasil, além de orientar instituições e profissionais na eventualidade da chegada do vírus ao País.
É importante mencionar que, a despeito da inédita intensidade do surto internacional, os casos registrados até hoje são brandos e sem letalidade associada. A possibilidade de uma pandemia causada pelo MPX é baixa, pois o vírus não é transmitido tão facilmente como o SARS-CoV2, por exemplo. A infecção acontece pelo contato próximo com pessoas infectadas, através de fluidos orgânicos contaminados, principalmente originado das lesões cutâneas. Não há indicação da transmissão respiratória, como acontecia com o vírus causador da varíola. Adicionalmente, há vacinas eficazes conhecidas e tratamentos medicamentosos disponíveis, por isso, não há razão para pânico. Não obstante, é importante manter um estado de vigilância e acompanhamento do surto internacional e, neste sentido, a SBV assume importante protagonismo.
Diretoria da Sociedade Brasileira de Virologia
Biênio 2021/2022