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26/12/2016 - Os vírus e as extinções

Em relação às medidas de extinção de autarquias e fundações perpetradas na forma de pacote pelo governo do RS e aprovadas nesta semana pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, a Sociedade Brasileira de Virologia observa atenta, e com especial preocupação, a situação de três fundações, nomeadamente a Fundação Estadual de Pesquisa e Produção em Saúde (FEPPS), Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária e Fundação Zoobotânica e suas possíveis consequências sobre a vigilância e manejo de viroses no estado.


O caso mais imediato de preocupação concerne à questão da FEPPS. Tal entidade exerce funções de diagnóstico laboratorial para ações prioritárias de vigilância de doenças emergentes. Especialmente no tocante a diferentes viroses em seres humanos, o Rio Grande do Sul tem necessidade de ampliação e não retração de ações de diagnóstico e monitoramento. É notório e alarmante que a região metropolitana de Porto Alegre represente hoje a área com a pior situação da epidemia de AIDS da Américas, dados os elevados índices de pacientes soropositivos ao HIV, sendo ainda relevante a presença de um subtipo diverso do vírus presente no resto do país. Tais dados são conhecidos, bem como o perfil local de resistência aos antivirais, justamente graças a esforços de pesquisa levados a cabo dentro das instalações da FEPPS, de forma isolada ou em convênios com universidades e outras instituições. O desenvolvimento de ferramentas diagnósticas e diferentes insumos para o monitoramento de viroses emergentes, tais como a Zika e Chikungunya, têm sido primordialmente realizados na instituição. Em um estado que não conta com unidades laboratoriais ativas de órgãos nacionais como a Fundação Oswaldo Cruz, a FEPPS era ainda mais importante por em muitos momentos ser o centro agregador de amostras virais para cooperação com os poucos laboratórios de virologia sediados nas Universidades gaúchas. O transporte de tais funções ao seio da Secretaria da Saúde, com perda de funcionários, será tema de preocupação para todos e deveria ser vista com cautela pelos governantes.


No caso da FEPAGRO, há preocupações que vão desde os possíveis impactos diretos dos vírus sobre a saúde animal até preocupações referentes a perdas econômicas por déficits na capacidade de diagnóstico e pesquisa em vírus limitantes das atividades de comércio e exportações de produtos de origem animal. A FEPAGRO não só promoveu a formação de grande parte dos virologistas do estado, como ao longo de sua história sediou o diagnóstico e pesquisas fundamentais para o controle e erradicação de barreiras comerciais do passado, tais como a Febre Aftosa e Peste Suína Clássica, como deu guarida à pesquisa para ferramentas de combate a barreiras sanitárias em potencial, sendo exemplo o desenvolvimento de vacinas diferenciais para a rinotraqueíte infecciosa dos bovinos, doença viral já erradicada em vários países da Europa e tida como uma potencial barreira ao comércio de animais no futuro. A FEPAGRO foi ainda em muitos momentos fundamental para o diagnóstico rápido necessário ao combate imediato de doenças virais emergentes em animais, tal como o surto de doença de Aujeszky em suínos no noroeste do estado no início da década passada. Em projetos conjuntos com diversas universidades do estado, foi um polo de captação de dezenas de milhões de reais para pesquisa e inovação nos últimos anos e sua ausência inclusive deve tornar a captação de alguns desses fomentos de fundo perdido dificultada para o estado.


Por último, é de preocupação também no caso de viroses emergentes em seres humanos e animais a extinção da Fundação Zoobotânica. A vigilância de epizootias em populações da fauna silvestre é fundamental em antecipar agravos à saúde pública, lembremos da observação da epizootia de febre amarela em bugios no final dos anos 2000, que permitiu uma ação rápida e integrada dos órgãos de saúde na imunização da população humana vivendo próximo das áreas atingidas.


Vários dos membros da SBV atuam ou atuaram em algum momento nessas instituições. Não somos insensíveis à necessidade de modernização e realocação de esforços e recursos nestas fundações. Todavia, a opção simples pela sua extinção não parece de forma alguma o caminho mais adequado. Num país carente de profissionais e laboratórios na área de virologia, a própria transição e transferência de toda essa gama de funções a outras instituições não é tarefa fácil ou rápida, donde perdas momentâneas ou até prolongadas podem ocorrer no controle e manejo de viroses relevantes em saúde humana e animal.


Ressaltamos ainda que o impacto destas extinções não são restritos ao Rio Grande do Sul. De fato a expertise gerada nestes três institutos e em seus pesquisadores, ex-aluno e alunos transbordam as fronteiras gaúchas, impactando o restante do Sul Brasileiro e mesmo o resto do pais e o MERCOSUL. Os danos causados por esta extinção serão sentidos por anos, e ficarão muito claros quando da próxima emergência em saúde publica (seja ela humana ou de impacto animal) surgir e o Rio Grande do Sul (e consequentemente o Brasil) não estiverem preparados para enfrentar novas epidemias. Que os vírus tenham compaixão do Rio Grande do Sul nesse período.


Fernado Spilki
Vice-presidente da SBV (2017-2019)
Mauricio Nogueira
Presidente da SBV (2017-2019)



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