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23/10/2018

Edital para Exame de Seleção - Pós-Doutorado PNPD/CAPES



10/10/2017 - CARTA DE BELO HORIZONTE

O aprofundamento da miséria na ciência brasileira

O investimento em ciência e tecnologia no Brasil é historicamente baixo, não se pode negar. Ainda que sejam notáveis e louváveis as tendências de elevação de valores investidos em C&T nos anos 2000, a produção científica brasileira nunca passou da 13ª colocação quando medida em número de artigos publicados, a despeito de termos ocupado a colocação de 5ª economia do mundo no período. Quando avaliamos o impacto comparativo de nossa produção em termos globais, com certeza ficamos ainda abaixo disso. Mas esta posição no cenário internacional quer dizer incompetência de nossos cientistas? Somos piores que os outros? Em absoluto. Não cabe aqui o complexo de vira-latas. Fizemos muito. Muito com o pouco recurso que sempre tivemos em comparação a outras áreas. Fizemos muito quando sabemos que os não mais que 10 bilhões de reais/ano aplicados no apogeu do investimento pelas agências de fomento federais e estaduais em C,T e inovação são risíveis quando comparados aos mais de 6 trilhões de reais do nosso PIB. Fizemos muito ao longo dos anos com bolsas de iniciação, mestrado e doutorado sempre defasadas em valores individuais e em quantidade insuficiente perante a demanda. Contribuímos de forma decisiva em diversos campos do conhecimento, auxiliamos o país em inúmeras situações de emergência em saúde, da Influenza pandêmica de 2009 à hecatombe representada pelo surto de Zika, do combate às ameaças e barreiras sanitárias do passado na produção agropecuária até a previsão das barreiras futuras. Formamos milhares de jovens,  publicamos milhares de artigos e transferimos à sociedade conhecimento aplicado e tecnologias. Mas parece que aos olhos de nossos governantes nunca fizemos o bastante, parece que somos eternamente e cada vez mais, rejeitados. Não importa o quanto soframos com a pressão para transformar os esparsos recursos de pesquisa em soluções para o país, vivendo o constante pesadelo das prestações de contas, da divisão de recursos parvos dentro dos programas de pós-graduação e outros problemas do dia-a-dia de quem almeja fazer ciência no Brasil. Nunca tivemos nem uma pequena parte dos recursos destinados ao setor elétrico, de infraestrutura, etc; o montante aplicado em ciência e tecnologia foi sempre pequeno, mas nesta hora, em que poderíamos ser chamados a alavancar o processo de retomada da atividade econômica, da construção de uma sociedade que se alinhe aos desafios do séc. XXI, somos paradoxalmente contemplados com um corte de recursos superior a 44% da média recente; do corte de bolsas e recursos do CNPq por contingenciamentos para garantir metas de planilha da equipe econômica. Nem nosso XXVIII CBV obteve recursos do CNPq. A CAPES pôde contribuir com recursos de não mais de 1/5 das despesas de nosso evento. Mas, em termos da vida real quanto representam na escala da economia nacional os contingenciamentos que caso levados a cabo irão paralisar boa parte da pesquisa no Brasil? Menos de 40 avos do valor de mais de 400 bilhões em renúncias fiscais concedidas aos grandes grupos empresariais no último semestre. A ciência brasileira cabe num troco das reservas do FGTS, não gastamos mais por ano que o Congresso Nacional sozinho. Como se não precisássemos mudar essa lógica se quisermos construir uma sociedade baseada no conhecimento. A SBV não pede a recomposição de valores de pesquisa aos níveis pré-2014. Pede mais. Pede que a ciência brasileira seja tratada com o devido valor, que não se veja mais ameaçada pela quebra de contrato constante, com a descontinuidade de recursos de capital, custeio e bolsas que, agora agravada, sempre rondou as portas de nossos laboratórios. Não podemos mais lidar de um lado com a sensação de incerteza absoluta sobre o futuro e ao mesmo tempo fornecer no tempo e qualidade necessárias as respostas que o país precisa no combate às doenças víricas. Estamos aqui de peito aberto, unidos às outras áreas da ciência, solicitando respeito, solicitando o nosso direito de cumprir nosso dever, de permitir que continuemos contribuindo de forma continuada e eficaz com a saúde e o desenvolvimento sustentável do Brasil. 

Assembleia do XXVIII Congresso Brasileiro de Virologia



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